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quinta-feira, 15 de julho de 2010

Nas águas amazônicas

Cobra Norato
Nas águas amazônicas

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

A índia tapuia sentiu a gravidez quando se banhava nas águas do rio Claro. Teve os filhos nas margens do Cachoeiri, entre os rios Amazonas e Trombetas. Vieram ao mundo na forma de duas serpentes escuras. A mãe lhes deu os nomes cristãos de Honorato e Maria. Eram gêmeos. Não podiam viver na terra. Criaram-se nas águas. O povo os chamava Cobra Norato e Maria Caninana.
Cobra Norato era forte e bom. Não fazia mal a ninguém. Pelo contrário, salvou muita gente de morrer afogada. Lutou contra peixes grandes e ferozes. Passava o dia nadando, esperando a chegada da noite. Quando a lua surgia no céu, ele saía da água, arrastando o corpo pela areia. Então, Cobra Norato se desencantava. Deixava o couro da cobra na margem do rio, e se transformava num belo rapaz. Adorava festas. Ia dançar, ver as moças, conversar com os outros rapazes. Pela madrugada, enfiava-se novamente no couro da cobra que deixara na margem e mergulhava nas águas do rio.
Sua irmã, Maria Caninana, era má e violenta. Jamais visitou a mãe. Afundava embarcações, feria peixes pequenos. Por isso, Cobra Norato a matou, depois de uma luta terrível. As duas serpentes se engalfinharam no meio do rio Madeira, transformando suas águas calmas num imenso rodamoinho.
Para virar homem de uma vez por todas, Cobra Norato precisava de alguém que ajudasse a desencantá-lo. Antes de mais nada, era necessário encontrá-lo dormindo. Depois, deveriam se jogar três pingos de leite de mulher na boca da cobra e dar uma cutilada de ferro virgem na sua cabeça. Ela, então, fecharia a boca e da ferida na cabeça sairiam três gotas de sangue. Assim, Honorato ficaria homem para o resto da vida.
Certo dia, a cobra nadou pelo Tocantins. Deixou o corpo na beira do rio e foi dançar. Fez amizade com um soldado e pediu que o desencantasse. O soldado topou e fez tudo o que era preciso. Honorato suspirou descansado. Queimou o couro da cobra. As cinzas voaram.
Nas terras e rios do Pará não há quem ignore a vida da Cobra Norato. Canoeiros apontam para lá e para cá, mostrando os locais por onde passava a Cobra Norato.





Mas a cobra assombrava. Todos tinham medo. Demorou para aparecer alguém que quisesse ajudar.

Mais esperto que o diabo

Os sete sapatos da princesa
Mais esperto que o diabo

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

Num reino de certo país distante, havia uma princesa que gastava sete pares de sapato por noite. Seu pai, o rei, apesar de não ser avarento, considerava um absurdo tal gasto. Principalmente pelo fato de que, à noite, a princesa deveria estar dormindo em seu quarto.
Resolvido a esclarecer o mistério, prometeu a mão de sua filha ao homem que descobrisse o que estava ocorrendo. E àqueles que tentassem, mas não tivessem sucesso, a esses o rei prometeu a degola.
Joãozinho, um rapaz que vivia correndo o mundo em busca de aventuras, soube do mistério e se propôs a solucioná-lo. Apresentou-se ao rei e pediu para dormir em um quarto próximo ao da princesa.
Quando anoiteceu e todo o castelo parecia dormir, Joãozinho foi olhar pela fechadura do quarto da princesa. Assim que bateu meia-noite, a princesa chamou: “Calicote! Calicote!”. E de dentro do baú guardado sob a cama, Joãozinho viu sair um diabinho que gritava: “É a hora! É a hora, princesa!”. A princesa pegou seis pares de sapato, colocou-os no baú, vestiu-se e, acompanhada do diabo, subiram a uma carruagem. E antes que partissem, Joãozinho instalou-se na traseira do veículo.
Passaram por terras estranhas, campos de flores de bronze, de prata, de ouro, de diamante. Joãozinho ia apanhando uma flor de cada tipo, como prova da viagem, e guardando-as no bornal. Finalmente, chegaram a um palácio iluminado, cheio de criados, músicos e convivas. Primeiro, todos se sentaram à mesa do banquete – e Joãozinho, escondendo-se sob a mesa, pegou alguns ossos de peru que caíam dos pratos.
Depois, quando a música começou a tocar, teve início o baile. A princesa dançava freneticamente. E, a cada dança, estragava um par de sapatos. Calicote, divertindo-se com tudo, pegava os pares estragados e jogava-os a um canto. Enquanto isso, sem que percebessem, Joãozinho escondia no bornal um pé de cada par destruído.
Quando iam bater duas horas, a princesa disse: “Calicote! É a hora!”. “Sim, princesa! Partamos!”, respondeu o demônio. E voltaram pelo mesmo caminho. Chegando ao palácio, o diabinho retornou ao baú, que foi escondido sob a cama, e a princesa dormiu.
Assim que amanheceu, Joãozinho apresentou-se diante do rei e disse ter a solução do mistério. Pediu ao soberano que providenciasse um banquete com a presença do bispo e da princesa. Iniciado o banquete, Joãozinho aguardou a hora da sobremesa. Nesse momento, levantou-se e disse: “Há nos jardins deste castelo flores de bronze, de prata, de ouro e de diamante?” – e ia retirando do bornal cada exemplar colhido durante a viagem. “Alguém comeu peru no jantar de ontem neste castelo?” – e mostrou os ossos que catara sob a mesa. A princesa ia ficando cada vez mais pálida, até que Joãozinho mostrou os sapatos que trouxera, fazendo-a desmaiar. Então, correu até o quarto e voltou de lá com o baú. “Senhor bispo, por favor, benza este baú”, disse o herói. Assim que o bispo fez o que Joãozinho pedira, o baú deu um estouro, espalhando pelo ar um insuportável cheiro de enxofre.
Nisso, a princesa voltou a si e exclamou, cheia de alegria: “Graças a Deus estou livre!”. Joãozinho acabara de libertar a princesa do feitiço que certa bruxa, invejosa de sua beleza, lhe colocara quando ainda era menina.
O rei, cumprindo a promessa, casou a princesa com Joãozinho – e eles foram felizes para sempre.

Maldade versus astúcia

Sapo com medo d'água
Maldade versus astúcia

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

No tempo em que os animais falavam, certo homem, vendo que o sapo cantava sobre uma pedra, agarrou-o e o levou para os filhos, a fim de que se divertissem. Depois de obrigarem o sapo a cantar várias músicas, as crianças começaram a maltratar o bicho. No fim, já cansadas de fazê-lo sofrer, decidiram matá-lo.
– Vamos amassar a cabeça do sapo com um pau! – gritavam.
E o sapo respondia: – Minha cabeça é dura como ferro!
– Vamos rasgar o sapo com faca!
E o sapo: – Me corpo é fechado pela proteção de São Jorge e nada me mata!
– Vamos esmagar o sapo com uma pedra!
– Vamos jogar o sapo na lagoa! – concluíram os meninos.
E o sapo, que era muito esperto, começou a chorar e a implorar: – Pelo amor de Deus! Na lagoa não! Me queimem vivo, mas na lagoa não! Se me jogarem na lagoa eu morro rapidinho!
As crianças, mais do que depressa, pegaram o sapo, correram pra lagoa e, felizes pela maldade, jogaram o sapo n’água. O sapo deu um belo mergulho, voltou à tona e, rindo das crianças, gritou: – Seu bobos! Eu sou bicho d’água! Eu sou bicho d’água!
É por esse motivo que, quando os antigos viam alguém recusar algo de que gostasse muito, diziam: – Esse é sapo com medo d’água...


– Isso só serve pra me fazer cócegas!

Uma história de esperteza

O padre, o estudante e o caboclo
Uma história de esperteza

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

Há muitos anos, o acaso uniu, na rabeira de uma tropa de mulas que percorria o interior de Minas Gerais, um padre, um estudante e, a transportar as malas e os livros dos dois, um caboclo observador. No lento trotar das mulas, sob o sol do sertão, padre e estudante debatiam sem chegar a qualquer conclusão.
Sem saber como dividir o queijo entre os três, o padre, certo de que, com sua oratória, poderia enganar os outros dois, propôs o seguinte: que dormissem e, ao amanhecer, aquele que contasse o sonho mais bonito, certamente inspirado por Deus, ganharia o direito de comer o queijo. Todos concordaram e, cobertos pela poeira da estrada, foram dormir.
No meio da noite, contudo, ouvindo o padre e o estudante roncarem, o caboclo levantou da rede, aproximou-se do armarinho em que a mulher guardara o queijo e o engoliu.
Quando amanheceu, enquanto tomavam o café ralo que a mulher lhes ofereceu, o padre, que sonhara a noite toda com o queijo, foi o primeiro a relatar seu sonho. Disse que, auxiliado por anjos, subira por uma escada cheia de enfeites dourados até o céu. O estudante, por sua vez, contou que, mal havia dormido, já se encontrou em pleno Paraíso, aguardando pelo padre que, tinha certeza, chegaria em poucos minutos.
Era a vez do caboclo falar. Com os olhos presos ao chão, numa voz mansa, ele disse: “Sonhei que via o senhor padre e o moço lá no céu, rodeados dos anjos e dos santos. E que eu tinha ficado aqui, sozinho e morto de fome. Então, subi no telhado e gritei com toda força pra vosmecês: ‘E o queijo?! Não vão comer o queijo pra mó da gente seguir viagem?!’. E vosmecês responderam, felizes da vida: ‘Pode comê o queijo, caboclo! É todo seu! Aqui no céu não precisamos de queijo!’. Fiquei tão feliz, e tudo pareceu tão de verdade, que levantei da rede e comi o queijo...”.

 
No fim da tarde, estacionaram ao lado de um casebre e pediram licença à mulher que os atendeu para pernoitar ali, oferecendo poucas moedas em troca de água, lugar para pendurar as redes e algum alimento. A pobre mulher concordou, enfiou as moedas rapidamente no bolso da saia e, um minuto depois, trazia aos hóspedes uma jarra de água e o único alimento existente no casebre: um miserável pedaço de queijo, que não dava para alimentar um quarto de homem.

Mentira repetida vira verdade





Três ladrões de ovelha

Mentira repetida vira verdade

Lá para as bandas do sertão da Paraíba, enfiados na caatinga, três cangaceiros descansavam, quando avistaram na estrada, ao longe, um homem que carregava uma ovelhinha nos ombros. Fazia dois dias que os três não comiam e, apesar de filhotinha, a ovelha daria uma bela refeição.
Mas os fora da lei também têm o seu orgulho e atacar um pobre diabo como aquele que ia pela estrada era até uma vergonha para três cangaceiros famosos e destemidos como eles. Foi quando o primeiro teve uma boa ideia, contou aos outros e eles resolveram pô-la em prática.
O primeiro cangaceiro foi até a estrada, disse bom-dia ao homem que lá vinha e perguntou:
– Onde é que vosmecê comprou esse cachorro tão bonito?
– Isso não é um cachorro, não. É uma ovelha, que eu comprei na feira – o homem explicou.
O cangaceiro teimou que era um cachorro, mas não disse mais nada e se despediu. Mais adiante, o segundo cangaceiro pareceu na estrada e foi logo elogiando o cachorrinho que o homem carregava nos ombros. Não adiantou o homem explicar que se tratava de uma ovelha, pois o cangaceiro continuou a insistir em chamá-la de cachorro.
Depois foi a vez do terceiro ladrão aparecer na estrada e fazer o mesmo jogo.
– Que cachorrinho bonito! Vosmecê não quer vender?
E os dois discutiram – é ovelha, é cachorro – até que o cangaceiro foi-se embora. A essa altura, o homem, muito aperreado, olhou devagarzinho a ovelha e acabou se convencendo de que ela era mesmo um cachorro. Largou-a ali mesmo na estrada e seguiu seu caminho, furioso consigo mesmo pela compra idiota que havia feito.
Os três cangaceiros, então, recolheram a ovelha na estrada e almoçaram muito bem naquele dia.



Quem não chora não mama!

O príncipe Lagartão

Quem não chora não mama!

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

Há muitos e muitos anos, um rei e uma rainha desejavam ardentemente ter um filho. Tentaram durante longo tempo, mas apesar de todas as poções mágicas e de todos os feitiços, não conseguiam realizar esse sonho. Um dia, a rainha, sentindo-se envelhecer, desesperada, implorou a Deus: – Senhor, conceda-me a graça de ter um filho, mesmo que seja um lagarto!
As semanas passaram e, de fato, ela sentiu que estava grávida. Nove meses depois, para alegria dos soberanos e de todo o reino, nasceu o herdeiro: não uma criança, mas um lagarto.
Pouco depois de nascer, aninhado em seu berço, o bicho-criança, escamoso e verde, chorava de fome. A ama de leite foi chamada e deu-lhe o peito. Mas o lagarto, logo na primeira tentativa que fez para sugar o alimento, arrancou-lhe, com a força das mandíbulas, o bico do seio. Enlouquecida de dor, aos prantos, a pobre mulher foi atendida pelo médico da corte.
Nova ama foi chamada, pois o lagarto continuava a chorar. E mais uma vez o príncipe Lagartão (como passou a ser chamado, carinhosamente, pelos pais) rasgou-lhe o bico do seio. Num único dia, 367 mulheres, tentando alimentar o herdeiro do trono, foram mutiladas. Os berros do lagarto já podiam ser ouvidos a quilômetros de distância, tamanha era a sua fome, enquanto os pais, agoniados, não sabiam o que fazer.
Ao lado do castelo, no entanto, viviam três irmãs muito pobres que, dizia-se, eram sobrinhas de uma fada. A mais jovem delas, que era também a mais inteligente, apresentou-se ao rei e afirmou ter a solução para o problema. Ela poderia alimentar o príncipe Lagartão, mas exigia, em troca, um baú de moedas de ouro. O rei, ensurdecido pelo choro do filho, concordou imediatamente.
A jovem, então, mandou que o funileiro real tomasse as medidas de seu seio e fizesse um funil de ferro. Assim que o artefato ficou pronto, ela enfiou ali o peito e, protegida, deu de mamar ao bebê.
Graças ao leite da jovem, o príncipe Lagartão cresceu forte e vigoroso, tornando-se, mais tarde, um rei de grande coração – apesar da horrível aparência.



Demônio escaldado tem medo de água fria

O diabo na garrafa

Demônio escaldado tem medo de água fria

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

Certo homem, que tinha todos os motivos do mundo para desconfiar da esposa, necessitou viajar a um país distante. Preocupado com o que poderia acontecer durante sua ausência, pediu ao demônio que vigiasse a mulher. O diabo concordou prontamente – e se transformou num serviçal.
A mulher, contudo, era muito esperta e percebeu que havia algo estranho naquele empregado que fiscalizava todos os seus movimentos e lhe fazia as vontades com extrema rapidez. Chamou, então, o demônio, e disse: “Vejo que você é um empregado com dotes excepcionais, capaz de verdadeiros milagres... Mas duvido que consiga fazer uma coisa...”. O demônio, envaidecido, e querendo provar seu poder, respondeu: “Posso fazer tudo o que a senhora me pedir – e muito mais”. A mulher, aproveitando-se do exagerado amor-próprio do diabo, sugeriu, apontando para uma garrafa vazia sobre a mesa: “Pois duvido que você consiga entrar naquela garrafa”. O capeta, sem perceber a arapuca, enfiou-se no vasilhame. E antes que ele pudesse escapar, a mulher fechou a garrafa com uma rolha.
Nas semanas que se seguiram, a mulher desfrutou de sua liberdade como bem entendeu, comprovando todas as desconfianças do marido. Quando este retornou de viagem, depois de ser recebido com extremo carinho pela esposa, perguntou pelo empregado. “Ah, meu amor”, respondeu a mulher, “um dia, não sei por qual motivo, ele ficou enfezado e simplesmente partiu...” E enquanto o marido pensava sobre o que poderia ter acontecido, ela completou: “Será que não era o demônio? Veja só o cheiro de enxofre que ficou nesta casa desde que ele foi embora!”. De fato, a casa fedia a alguma coisa que a mulher, de caso pensado, queimara sem que o marido percebesse. “Por que você não pega esta garrafa, vai à igreja e enche-a de água-benta? Depois jogamos a água pelos cantos da casa e nos livramos desse cheiro do Inferno...
”O marido, que além de ciumento era um simplório de marca maior, obedeceu. Quando chegou à igreja, aproximou-se da pia de água-benta e, tirando a rolha, começou a encher a garrafa. Mas quando a primeira gota caiu sobre o demônio, este fez o vasilhame explodir – e, queimado pela água-benta, disparou rumo ao Inferno para nunca mais voltar.
O marido, sem nada entender, ainda meio tonto por causa da explosão, voltou para casa. E, para alegria da esposa, continuou viajando a trabalho – mas sem conseguir que o demônio aceitasse tomar conta de sua mulher.

Quem tudo quer, tudo ganha

O papagaio real

Quem tudo quer, tudo ganha!

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

Duas irmãs moravam juntas, mas a mais velha era muito boa e a mais nova, maldizente e preguiçosa. Várias noites seguidas, a mais nova escutou um barulho de asas e depois a voz de um homem no quarto da sua irmã. Achou aquilo muito esquisito. Certa noite, resolveu espiar pelo buraco da fechadura. Viu, no meio do quarto, uma bacia cheia de água.



Quando bateu a meia-noite, chegou na janela um papagaio enorme e muito bonito. A ave voou para dentro do quarto, entrou na bacia e sacudiu-se, espalhando água para todos os lados. Cada gota que caía se transformava numa moeda de ouro e, quando o banho terminou, o papagaio tinha se transformado no príncipe mais formoso do mundo. Ele se sentou do lado da irmã mais velha, tomou sua mão e os dois começaram a namorar.
Louca de inveja, a irmã mais nova resolveu acabar com aquela história no dia seguinte. À tarde, quando a irmã não estava, encheu o peitoril da janela e a bacia com cacos de vidro que eram invisíveis de tão transparentes. À noite, o papagaio chegou e, batendo asas no peitoril, cortou-se todo. Voou para a bacia e cortou-se mais ainda. O papagaio não virou príncipe, arrastou-se até a janela e disse para a moça, assustada com o que sucedera:



– Ingrata! Agora, se quiseres me ver, só no reino de Acelóis.



Batendo as asas ensanguentadas, desapareceu. A moça quase se acabou de tanto chorar. Brigou muito com a irmã invejosa e deixou a casa, decidida a procurar o noivo mundo afora. Andou por muitos lugares. Empregou-se como criada nas casas, só para perguntar onde ficava o reino de Acelóis. Ninguém sabia ensinar e a moça foi ficando desanimada.
Depois de muito viajar, viu-se perdida numa floresta. Com a chegada da noite, resolveu subir numa árvore para descansar. Foi aí que viu algumas aves conversando e ficou sabendo que uma delas seguia justamente para o reino de Acelóis. O príncipe estava muito doente. Para curá-lo era preciso dar-lhe de beber três gotas de sangue do dedo mindinho de uma mulher que quisesse dar a vida por ele.
Na manhã seguinte, a moça prestou atenção na direção que a ave seguia e pôs o pé na estrada. Quando o sol se punha, avistou o reino de Acelóis. Pediu abrigo na casa de uma família de camponeses e, ali, ficou sabendo das novidades. O príncipe continuava doente e o pássaro que descobrira o modo de curá-lo havia sido morto por um gavião quando chegava perto do palácio real.
No outro dia, a moça saiu à procura do rei, o qual já recebia qualquer pessoa que lhe prometesse salvar seu filho, o príncipe. A moça lhe disse, então:
– Posso curar o príncipe, se Vossa Majestade me der, de tinta e papel passado, a metade do reino e de tudo que lhe pertencer.
A contragosto, o rei aceitou a proposta. A moça foi para o quarto do príncipe, furou o dedo mindinho e derramou três gotas de sangue nos lábios do doente. Assim que as engoliu, o príncipe abriu os olhos e levantou-se da cama. Quase não acreditou, ao reconhecer sua salvadora. Foi, então, falar com o pai. Disse que aquela era sua verdadeira noiva desde quando ele estava encantado em um papagaio real. Queria se casar com ela. O rei não gostou, pois não se tratava de uma princesa. Negou seu consentimento.
– Vossa majestade me deu a metade de tudo que lhe pertence – disse a moça, exibindo seu contrato. – Se não posso me casar com o príncipe, vou cortá-lo ao meio e levar a metade comigo.
Ao ouvir falar em cortar o príncipe pelo meio, o rei voltou atrás e deu seu consentimento. Os dois se casaram e foram felizes para sempre.



Vizinhança perigosa

A onça e o bode



Vizinhança perigosa



Da Página 3 Pedagogia & Comunicação



Caminhando pelo mato, o bode descobriu um bom lugar para fazer uma casa. Capinou o terreno, deixando-o limpinho para dar início à construção. Como já estava cansado, foi embora, preferindo começar no dia seguinte.
A onça também procurava um terreno para erguer sua casa. Deparando com o lugar que o bode capinara, achou que estava com muita sorte. Cortou e empilhou as madeiras para fazer a estrutura. Depois foi embora, pois precisava dormir.
No dia seguinte, ao ver a madeira à sua disposição, o bode ergueu a estrutura. “Que sorte que estou dando!”, pensava ao fim do trabalho, quando já se retirava. Mais tarde foi a vez de a onça chegar ao terreno e ver a estrutura pronta. “Que sortuda que eu sou!”, disse com suas pintas, enquanto cobria a madeira com taipa.
Então, a onça foi buscar seus móveis e, ao voltar, deu de cara com o bode, sentado numa poltroninha, muito à vontade. Os dois não custaram a perceber que haviam dividido o trabalho da construção. Decidiram morar juntos, portanto.
Mas viviam desconfiados um do outro e não lhes faltava uma boa razão para isso. Um dia, a onça voltou da caçada, arrastando um cabrito entre os dentes. O bode, acabrunhado, saiu de fininho para o mato, certo de que, mais dia menos dia, aquele seria o seu destino.
Naquela mesma tarde, porém, o bode encontrou uma onça morta por um caçador e levou-a para casa, deixando seu corpo estendido na porta de entrada. Vendo a companheira morta, a outra onça quis saber do bode como é que ele a tinha matado.
O bode explicou que era dono de um anel mágico. Bastava colocá-lo no dedo e apontar alguém para fulminá-lo. A onça fez que não acreditou e o bode, colocando o anel no indicador, perguntou:
– Quer que eu lhe mostre?
A onça disparou mato adentro, apavorada. Nunca mais voltou. O bode, feliz da vida, ficou vivendo sozinho na sua casa, sem motivo de preocupação, aproveitando-se da fama de mata-onça.

A mentira tem pernas curtas

A gulosa disfarçada



A mentira tem pernas curtas



Da Página 3 Pedagogia & Comunicação



Um homem tinha se casado com uma mulher excelente, boa dona de casa, trabalhadeira e honrada, mas muito gulosa. Para disfarçar seu apetite, a mulher fingia-se sem vontade de alimentar-se sempre que fazia as refeições diante do marido. Porém, apesar desse regime, engordava cada vez mais.
Admirado de alguém poder viver com tão pouca comida, o marido resolveu certificar-se do que se passava. Será que a mulher não se alimentava em sua ausência? Disse que ia para o trabalho e escondeu-se num lugar onde poderia acompanhar os passos da esposa.
No almoço, viu-a fazer tapiocas de goma, bem grossas, molhadas no leite de coco, e comê-las todas, deliciada. Na merenda, mastigou um sem-número de alfenins, branquinhos e gostosos. Na hora do jantar matou um capão, ensopou-o em molho espesso, saboreando-o. À ceia, devorou um prato de macaxeiras, enxutinhas, acompanhando-as com manteiga.
Ao anoitecer, o marido apareceu, fingindo-se cansado. Chovera o dia inteiro. A mulher perguntou:
– Homem, como é que trabalhando na chuva você não se molhou?
O marido respondeu:
– Se a chuva fosse grossa como as tapiocas que você almoçou, eu teria vindo ensopado como o capão que você jantou. Mas a chuva era fina como os alfenins que você merendou e eu fiquei enxuto como as macaxeiras que você ceou.
A mulher compreendeu que havia sido descoberta e nunca mais escondeu seu apetite do marido.