sábado, 3 de julho de 2010

Poema Disciplina

O trabalho começa ao romper do dia. Mas nós começamos,



um pouco antes do romper do dia, a reconhecer-nos


nas pessoas que passam na rua. Ao descobrir os raros


transeuntes, cada um sabe que está sozinho


e que tem sono — perdido no seu próprio sonho,


cada um sabe no entanto que com o dia abrirá os olhos.


Quando a manhã chega, encontra-nos estupefactos


a fixar o trabalho que agora começa.


Mas já não estamos sozinhos e ninguém mais tem sono


e pensamos com calma os pensamentos do dia


até que o sorriso vem. Com o regresso do sol


estamos todos convencidos. Mas às vezes um pensamento


menos claro — um esgar — surpreende-nos inesperadamente


e voltamos a olhar para tudo como antes do amanhecer.


A cidade clara assiste aos trabalhos e aos esgares.


Nada pode turvar a manhã. Tudo pode


acontecer e basta levantar a cabeça


do trabalho e olhar. Rapazes que se escaparam


e que ainda não fazem nada passam na rua


e alguns até correm. As árvores das avenidas


dão muita sombra e só falta a erva


entre as casas que assistem imóveis. São tantos


os que à beira-rio se despem ao sol.


A cidade permite-nos levantar a cabeça


para pensar estas coisas, e sabe bem que em seguida a baixamos.






Cesare Pavese, in 'Trabalhar Cansa'


Tradução de Carlos Leite

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